CAPÍTULO III | O HIPERTEXTO COMO LINGUAGEM

O HIPERTEXTO COMO LINGUAGEM

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O homem é um ser de linguagem, é de sua natureza comunicar-se. Assim como o homem transforma-se através dos séculos, transformam-se sua linguagem, cultura e sociedade. Antes da prensa de Gutenberg, nossa cultura era manuscrita e oral. Transformou-se em uma cultura impressa e agora reconfigura-se numa cultura digital. O impacto das tecnologias nessa construção da sociedade altera totalmente a maneira com que nos relacionamos e nos organizamos perante a informação e seu manuseio.1

Vivemos hoje uma era “informático-midiática”, onde coexistem antigas e novas formas de ler, escrever, pensar e aprender. Estamos em transição, em constante transformação e construção da sociedade e do conhecimento humano. E essas transformações ocorrem cada vez mais rápido em decorrência da evolução tecnológica e do crescente volume de informação que circula entre as pessoas. É como se vivêssemos um, ou vários séculos, em apenas uma década.

O conhecimento humano na era eletrônico-digital, está relacionado com novas formas de comunicar, produzir, distribuir, colaborar e fundamentalmente, de organizar esse conhecimento, esse volume de informação. Os antigos sistemas conceituais de hierarquia e linearidade são agora substituídos por outros de multilinearidade hipertextual, links e redes.

Cria-se um novo cenário que propicia a hibridização das linguagens perdida na Renascença, com a separação dessas linguagens e sobretudo em função do desenvolvimento dos valores visuais. O ciberespaço é híbrido em sua essência e mistura noções antes entendidas separadamente, como as noções de: unidade, identidade/autoria e localização. É o ambiente ideal para a criação e o desenvolvimento de novas formas de linguagens e comunicação.

As redes digitais, rizomáticas, desterritorializaram o texto, por exemplo, fazendo emergir um texto interativo, sem fronteiras rígidas. Não há mais “um” texto, mas o texto em movimento, sempre re-centralizado.

Segundo Marshall McLuhan, o híbrido é o encontro de dois meios (a+b) e constitui um momento de verdade e revelação, do qual nasce a nova forma (c): “O momento de encontro dos meios é um momento de liberdade e liberação do entorpecimento e do transe que eles impõem aos nossos sentidos.”2

Convivemos hoje, com novas possibilidades de combinações entre as linguagens, além de novas formas de linguagens não-verbais. Como toda linguagem está ligada à percepção, os meios híbridos, ao promoverem o encontro dessas linguagens, estimulam uma mudança em nossa percepção, alterando assim a posição relativa de nossos sentidos. É através dessa hibridização que, num mesmo espaço, pensamento e linguagem interagem e são explícitos. Riffaterre3 sustenta que o hipertexto é a forma extremada de todas as possibilidades de linguagem.

Nosso objeto de pesquisa é a forma hipertextual de linguagem e o híbrido “sonoro-verbal-visual”, conforme descrito por Santaella no livro “Matrizes da Linguagem e Pensamento”, em que elabora um sistema classificatório das linguagens de acordo com a semiótica peirceana. Portanto, estudar essas linguagens implica em olhá-las em interação com o meio digital onde se manifestam, pois a forma híbrida, nasce de uma atualização ou adaptação, da linguagem sobre o meio. Vale lembrar aqui, a famosa expressão de Marshall McLuhan, que diz: “o meio é a mensagem”.

Nessa formulação, o autor assume que o meio, geralmente pensado como simples suporte para o conteúdo, é um elemento determinante da comunicação. Em outras palavras, o meio, o canal, a tecnologia em que a comunicação se estabelece, não apenas constitui a “forma” comunicativa, mas determina o próprio “conteúdo” da comunicação. Em cada caso, diferentes estruturas perceptivas desencadeiam diferentes mecanismos de compreensão e adquirem diferentes significados.

De acordo com a autora Lúcia Leão, há um salto qualitativo de complexidade4 quando o texto do hipertexto, como estrutura interativa, abandona a estrutura linear do texto impresso: “é sempre possível modificá-los”5, pois sua estrutura apóia-se sobre dois elementos básicos:

  • As lexias, blocos de informação que podem ser formados por diferentes linguagens, pois o meio digital permite a interação de textos, imagens, sons, etc.;
  • Os links, vínculos eletrônicos que ligam as lexias fazendo conexões interativas, permitindo a navegação e dando assim uma ligação contígua entre os elementos ligados.6

Segundo Landow:

(…) o texto [do hipertexto] apresenta-se fragmentado, atomizado em seus elementos constitutivos (em lexias ou blocos de texto), e essas unidades legíveis passam a ter vida própria ao se tornarem menos dependentes do que vem antes ou depois na sucessão linear.7

A forma do documento eletrônico abriga várias estruturas lógicas em uma única estrutura física, pois “a quase instantaneidade da passagem de um nó a outro permite generalizar e utilizar em toda sua extensão o princípio da não-linearidade”.8 Portanto, juntamente com o princípio de não-linearidade, vem o princípio da interatividade.

Reconhecendo que a interatividade não é apenas um fato tecnológico e sim intelectual, utilizaremos o conceito de Rokeby, onde “a interatividade se define no momento em que a obra reflete de volta para nós a conseqüência de nossas ações e decisões”.9 Nessa medida, acreditamos que a forma hipertextual, por sua natureza e possibilidade como linguagem, determina um novo tipo de representação no espaço digital, a ser explorado, criando assim, novas formas de expressão.

Enquanto o homem experimenta e aprimora essa nova forma, a tendência é continuar transpondo as linguagens pré-existentes para a nova mídia. McLuhan10 atenta para o fato que no início de uma nova tecnologia, o homem despeja tudo que havia antes produzido nesse novo meio, utilizando as mesmas formas e conteúdos, copiando e colando de um meio para o outro. É o que observamos na passagem do rádio para a televisão, e o que o cinema fez com a literatura, por exemplo. Mas com o passar do tempo, com a familiaridade com o novo meio, novos índices relacionais são estabelecidos, não apenas entre os sentidos, mas entre eles próprios.

A experimentação por parte de artistas e usuários do novo meio é muito importante para a evolução das novas linguagens. Pois à parte estas, o que percebemos atualmente é o mero transporte de mídias e linguagens tradicionais para o ciberespaço.

Nessa medida, é importante levantar algumas questões: estamos transformando a Internet numa imensa televisão? O hipertexto vai se consolidar em qual tipo de expressão e discurso? Estamos mergulhando na sinestesia provocada pelos meios digitais?

Acreditamos que uma forma digital própria de linguagem ainda não foi criada, mas há fortes indícios, como citamos anteriormente e como analisaremos no último capítulo desta monografia, de que essa nova escritura hipertextual de representação do conhecimento está prestes a emergir da interação do homem com o meio digital. Vivemos atualmente numa “Cultura do Remix”.

1MCLUHAN, 1969.

2MCLUHAN, 1999, p.75.

3RIFFATERRE, 1994.

4LEÃO, 1999, p.30.

5LE COADIC, 1996, p.60.

6LEÃO, 1999, p.30.

7LANDOW, 1992, p.52.

8LÉVY, 1996, p.37.

9apud LEÃO, 1999, p.31.

10MCLUHAN, 1999.

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