MASHUPS DO KUTIMAN VS YOUTUBE
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Para apontar as características dos mashups e do remix, seu hibridismo e a sinestesia que as convergências dos meios possibilitaram no campo do audiovisual e para dar visibilidade a essa tendência contemporânea, foi analisado como objeto de estudo o álbum-mashup virtual “Thru You”1, do músico Kutiman.
Adotaremos o termo “álbum-mashup virtual” para referirmo-nos à obra “Thru You” por tratar-se de um álbum virtual, disponível na internet e não um álbum físico. E por conter obras de mashups audiovisuais e não apenas músicas.
Ophir Kutiel, profissionalmente conhecido como Kutiman, nasceu em Jerusalém em 1982. Estudou piano desde os seis anos, bateria e guitarra até os quatorze e aos dezoito anos, mudou-se para Tel Aviv para estudar jazz na Rimon Music College. Interessou-se também, nessa mesma época, pelo movimento musical contemporâneo, bastante distinto da tradicional música que estava estudando e descobriu, através de seu amigo Saboo – artista israelense e atualmente parceiro musical de Kutiman – o afrobeat e o funk. Músicos como James Brown e Fela Kuti passaram a ter grande influência em sua obra. Ficou obsecado pela música de Fela Kuti e é justamente daí que surgiu seu nome artístico Kutiman. Viajou para Jamaica para estudar reggae e afrobeat com Stephen e Damien Marley.
Tornou-se popular no mundo inteiro com a criação do projeto de mashups “Thru You”, lançado na internet em fevereiro de 2009. Além da criação de seu próprio álbum homônimo, Kutiman colabora com muitos outros artistas da cena israelense, como Hadag Nahash, compondo e arranjando músicas e produzindo videoclipes para essas músicas2.
Esse israelita de 25 anos, inspirado pela escola do Funk e da Black Music, buscou pelo YouTube dezenas de fragmentos de vídeos musicais, postados pelos usuários – músicos amadores – e durante dois meses, tempo que “Thru You” levou para ser concluído, Kutiman colecionou tudo o que explodiu na sua frente durante sua “expedição” pelos sons do YouTube. Como músico, produtor, remixou e integrou as partes em composições autorais. O resultado é uma obra colaborativa, um álbum-mashup virtual composto por sete mashups de alta qualidade, que mais parecem temas originais compostos por uma banda de Soul, Dub e Funk e que demonstram estar completamente integrado às conquistas e (r)evoluções que ocorreram nessa década.
Está tudo nos mashups de “Thru You”: conteúdo colaborativo, compartilhamento de informação, licença livre, Creative Commons, etc.. O mais criativo e inspirador exemplo do que acontece quando o artista, artesão, produtor, detém as ferramentas de produção e distribuição. De certo modo, uma revolução que há tanto tempo foi idealizada por Marx, DJ Shadow, JDilla, entre tantos outros pensadores e artistas ideólogos da liberdade.
Larry Lessig, autor do livro “Remix: Making Art and Commerce Thrive in the Hybrid Economy”, um dos maiores defensores da internet livre e do fair use, professor na faculdade de direito de Stanford e um dos fundadores do Creative Commons, escreveu em seu blog, ao convidar os leitores a assistirem e escutarem o álbum de Kutiman: “vocês irão entender tudo e mais um pouco do que tentei escrever no meu livro.”3
“Thru You” é um álbum-mashup virtual, uma peça legítima de cultura livre, cercada de todas as questões imagináveis da era digital e de seus paradoxos e que jamais seria possível se não fosse a internet. Considerado pela “Time Magazine”4, uma das 50 melhores invenções do ano de 2009, é assinado por mais de 100 autores, composto e regido por Kutiman, uma espécie de maestro da contemporaneidade.
Ouve-se nos mashups do “Thru You” uma música orientada pelos grooves, das camadas rítmicas às harmônicas e tratamentos eletrônicos-digitais dos vários instrumentos – bateria, piano, vocais, sintetizadores, theremin, etc. E as imagens do vídeo resultante retratam uma grande jam session, uma nova forma de arte que combina Djing e Vjing com vídeo montagem.
Os vídeos de “Thru You” são decorrentes das composições musicais criada por Kutiman, compostos pelas imagens resultantes da edição musical feita por ele. Um grande exemplo de uma produção independente que não deixa nada a desejar, tanto em qualidade técnica quanto musical, à qualidade da indústria fonográfica. E para aqueles que desdenham dos remixes e mashups por acharem que o DJ, ou o produtor, se limitou a copiar e a colar fragmentos de sons ou músicas, vale apena conferir as composições de “Thru You”.
De acordo com Miguel Caetano, em seu bolg “Remixtures”:
(…) isto é o melhor que a cultura da remistura e da Web 2.0 nos trouxe. No oitavo e último vídeo, o próprio Kutiman explica por suas palavras como surgiu o projeto e como é que ele conseguiu costurar aquela magnífica manta de retalhos sonora.5
À luz do regime atual dos direitos autorais, Kutiman costura sua manta de retalhos audiovisuais e traduz uma sensibilidade contemporânea. Comete uma série de ilegalidades, uma vez que não pediu a autorização a nenhum dos músicos que registaram os temas originais para criar sua obra derivada. Apesar do artista incluir no final dos vídeos todos os créditos e indicar a lista completa de links para os vídeos originais, qualquer um dos visados poderia fazer queixa ao Google, de modo a obrigá-lo a editar o vídeo ou a removê-lo, porém isso não aconteceu.
Logo na página inicial de “Thru You”, nos deparamos com a seguinte mensagem: “O que você está prestes a assistir é um mix de vários vídeos do YouTube editados de maneira a criar o “Thru You”. Em outras palavras – o que você vê é o que você ouve”, como ilustra a figura a seguir:
Figura 8 . página inicial do projeto “Thru You”, de Kutiman, na internet
Essa é a grande transformação estética e sinestésica trazida pelos mashups audiovisuais, um vídeo onde as imagens – o que vemos – fazem o “papel da trilha sonora”, já que a composição é elaborada a partir dos elementos musicais de fragmentos de vídeos, ou seja, as imagens são decorrência da composição musical e das edições sonoras que ouvimos. Em “Thru You”, o que aparece na tela são mosaicos dos instrumentos que estão sendo tocados na música que ouvimos naquele momento:
Figura 9 . página de mashups do projeto “Thru You”, de Kutiman, na internet
As sonoridades geradas pela edição, pelos cortes e emendas feitos pelo compositor, podem ser ao mesmo tempo, antagônicas e coerentes, despropositadas ou verdadeiros encontros. São, portanto, forças, elementos postos em ação, através de pequenos cortes de natureza composicional (a+b) que, ao encontrarem-se uns com os outros, tornam-se sensíveis (=c). E esse sempre foi o esforço de todo compositor.
De acordo com Rodrigo Fonseca e Rodrigues:
Se o princípio da criação de um mashup é o de “quebrar a série” do tempo formalizado, isto se dá precisamente porque um outro sentido pode nascer onde se corta. Em resumo: os cortes e emendas feitos no material sobredeterminado, podem reanimar a sensação ao promover rupturas (…) a fim de usurpar deles outras intensidades.6
É através da edição, da facilidade com que se “copia e cola” informações nos meios digitais que os cortes e emendas supracitados tornaram-se possíveis. Ou de acordo com Eisenstein, é através da montagem, da colisão, do conflito. O fato é que, com a prática do remix surge uma nova relação entre imagem e som. Porém, essa nova relação vem sendo formada desde o advento do formato do videoclipe, onde os papéis foram invertidos e a imagem passou a dar suporte ao som. Até então, tanto no cinema quanto na televisão, era a trilha sonora que dava suporte às imagens.
Arlindo Machado afirma que houve uma ruptura entre a barreira do imagético e do sonoro, não havendo mais uma música fora do videoclipe que possa ser ouvida independentemente dele. Podemos destacar o trabalho de Golley & Creme no vídeo “Mondo Vídeo” (1986)7, onde a trilha foi criada junto com o videoclipe, não havendo dissociação entre imagem e som. E o trabalho “Vermelho Sangue”, de Luiz Duva, onde “a variação na sucessão das imagens gera intensidades de violência e afeto”8, utilizando-se do “efeito Kuleshov” na sobreposição das imagens.
Com efeito, constata-se que o processo formador do mashup, baseado na fórmula: “a+b=c”, ou seja, na combinação de uma ou mais fontes para formação de algo novo, é o mesmo adotado em diferentes períodos da história, não é totalmente inovador. Seja na “obra de arte total” proposta por Wagner no século XIX, no cinema russo de 1920, ou na música visual de Norman McLaren e Oskar Fishinger. Nesse sentido, o que varia é apenas a forma aplicada no relacionamento dos conceitos antecessores às tecnologias e mídias emergentes.
Segundo o pesquisador Arlindo Machado, a artemídia apresenta aproximações e distinções:
A arte sempre foi produzida com os meios de seu tempo. Bach compôs fugas para cravo porque este era o instrumento musical mais avançado da sua época em termos de engenharia e acústica. Já Stockhausen preferiu compor texturas sonoras para sintetizadores eletrônicos, pois em sua época já não fazia mais sentido conceber peças para cravo, a não ser em termos de citação histórica. Mas o desafio enfrentado por ambos os compositores foi exatamente o mesmo: extrair o máximo das possibilidades musicais de dois instrumentos recém-inventados e que davam forma à sensibilidade acústica de suas respectivas épocas. (…) Por que, então artista de nosso tempo recusaria o vídeo, o computador, a Internet, os programas de modelação, processamento e edição de imagem? Se toda arte é feita com os meios de seu tempo, as artes midiáticas representam a expressão mais avançada da criação artística atual e aquela que melhor exprime sensibilidade e saberes do homem no início do terceiro milênio.9
Ao longo dessas discussões, por diversas vezes o suporte digital foi mencionado como sendo o único capaz de realizar os sonhos de defensores e pesquisadores da música visual. E, de fato, eles representam um passo significativo em todos os sentidos. Como abordamos em capítulos anteriores, a ansiedade da música visual por uma tecnologia viabilizadora da plena integração entre imagem e som, sempre foi muito grande. Era um desejo secular, reprimido por não encontrar uma tecnologia adequada e que encontra finalmente na tecnologia digital, um meio de vir à tona. Como constata Sérgio Basbaum, “o suporte digital traz em si a vocação para a sinestesia e a complementaridade”.10
Basta observar a quantidade de experiências que existem atualmente acerca da relação entre sons e imagens para verificar que Basbaum estava certo. Com a tecnologia digital, sons e imagens podem ser realmente unidos, já que ambos são gerados a partir da mesma essência, o código binário.
Na música visual, um dos primeiros defensores da tecnologia digital foi o norte-americano pioneiro da computação gráfica, John Whitney. Um dos primeiros a trabalhar em meios digitais na década de 60 do século passado, apoiado pela IBM. Após quase 20 anos de trabalho com as máquinas digitais, Whitney já vislumbrava suas possibilidades em 1981, quando publicou o livro “Digital Harmony: On The Complementarity of Music and Visual Art”. No ano de 1994, em artigo publicado no Computer Music Journal, escreve:
(…) basta que uma composição esteja armazenada nesta extraordinária memória [do computador], para que a liberdade do músico em modificar, a liberdade em refinar progressivamente e perceptualmente cada mínimo detalhe seja total.11
Os computadores pessoais e os softwares começam a fazer parte de nosso cotidiano no final do século XX e com o advento da internet, alcançam várias áreas de atuação, seja na música, no vídeo, no audiovisual. Grandes transformações avançam no âmbito da esfera do remix e contribuem para a compreensão da prática dos mashups, onde “forças e formas serão continuamente re-sintetizadas pelo trabalho do compositor remix”12.
O compositor remix pode ser um VJ, DJ, músico, vídeo artista, performer, etc.. O que diferencia o trabalho de um VJ e DJ, de um mashup é que, por definição, um VJ mixa imagens em acompanhamento de músicas ao vivo. Na maioria das vezes o VJ acompanha um DJ, que é o responsável pelas sonoridades, embora existam VJs que criam também as sonoridades, a princípio o VJ “só” teria que se preocupar com a edição e sincronia de suas imagens. Nessa nova concepção, o compositor de mashups é responsável pela criação de ambos materiais, já que a composição musical é realizada a partir de materiais audiovisuais.
O mashup se aproxima bastante do que Patrícia Moran chama de “audiovisão”13. Uma proposta que utilizaria as possibilidades da “audiovisão” de fato não seria nem música, nem imagem, mas uma linguagem híbrida audiovisual em seu sentido mais puro, pois a partir do momento que o autor passa a elaborar sons e imagens, a denominação Vjing já não é mais válida.
Levando em consideração todas essas observações, no mundo virtual dos computadores, o que se propõe aqui com a prática dos mashups é algo novo, nem música, nem cinema, nem Vjing, não é nada disso e tudo isso ao mesmo tempo. Uma obra audiovisual capaz de inverter alguns sentidos e funções entre imagem e som. Uma nova proposta, onde “a+b=c” e onde se cria uma linguagem híbrida sem predominância de qualquer linguagem que não ela mesma: “o que você vê é o que você ouve”.
1Fonte: http://thru-you.com (acessado em 30/03/2010).
2Ver: www.youtube.com/watch?v=DeEuuJHhgVg (acessado em 30/03/2010).
3Tradução livre para: “you’ll understand everything and more than what I try to explain in my book”. Fonte: www.lessig.org/blog/2009/03/remix_buy_the_remix.html (acessado em 30/03/2010).
4Fonte: http://www.time.com/time/specials/packages/article/0,28804,1934027_1934003_1933973,00.html (acessado em 30/03/2010).
5Fonte: http://remixtures.com/2009/03/thruyou-o-album-mashup-do-youtube-de-kutiman (acessado em 30/03/2010).
6RODRIGUES, 2003, p.5.
7Ver: http://www.youtube.com/watch?v=0AkaSfoQ92k (acessado em 30/03/2010).
8MORAN, 2005, p.10.
9MACHADO, 2007, p.9-10.
10BASBAUM, 2002, p.167.
11WHITNEY apud, BASBAUM, 2002, p.164.
12RODRIGUES, 2003, p.4.
13MORAN, 2005. p.16.