CAPÍTULO I | A OBRA DE ARTE TOTAL

CAPÍTULO I

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A OBRA DE ARTE TOTAL

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Quando Whilhelm Richard Wagner, compositor alemão do século XIX, falava em “obra de arte total” em sua obra intitulada “Das Kunstwerk der Zukunft”1 ou “A Obra de Arte do Futuro”, propunha a convergência entre as linguagens artísticas produzindo um espetáculo completo. Para o compositor as artes não deveriam estar isoladas umas das outras, já que o homem é um ser de linguagem.

A “obra de arte total” proposta por ele, considerava uma teoria global para todas as artes, indo na contramão dos limites impostos pela Arte até o século XIX, que considerava apenas as linguagens artísticas de forma separada.

Wagner acreditou que a pintura, a música e a poesia já haviam alcançado o fim de suas evoluções e que, para inovar, seria necessário combinar as linguagens em uma “Gesamtkunstwerk”2. Elaborou então um projeto pioneiro: construiu um edifício projetado especificamente para suas óperas, criando uma entidade unificada entre a orquestra e o palco. Algo inusitado para a época, que logo tornou-se comum ao cinema e, hoje com os meios digitais, é constantemente atualizado. Ele parecia estar mesmo prevendo o surgimento do que hoje chamamos de híbridos3.

No entanto, mesmo naquela época, a ópera já era multimídia, como ressaltam os autores Yara Borges Caznók e Alfredo Naffath Neto, no livro “Ouvir Wagner – Ecos Nietzschianos”:

Nos séculos XVII, XVIII e ainda no XIX, ia-se à Ópera, não só pelo espetáculo musical. Espectadores entravam e saíam da sala para conversar, comer, ler, jogar cartas ou discutir política e finanças. Somente os trechos mais famosos e solistas mais brilhantes conseguiam o silêncio. Mas a obra de arte total wagneriana exige uma outra qualidade de concentração, fruição e mergulho. A formação do novo ouvinte.4

A reflexão sobre o conceito de convergência dos meios, é contextualizada no século XXI pela autora Lúcia Santaella, no livro “Cultura e artes do pós-humano: da cultura das mídias à Cibercultura”5, onde a autora ressalta que as fronteiras entre os meios artísticos foram rompidas devido às transformações culturais do século XX. Santaella faz uma abordagem da arte contemporânea a partir dos referenciais tecnológicos, ressaltando que com o crescente acesso aos meios de comunicação de massa e com o advento da cultura de massa, torna-se possível a fusão da cultura erudita com a cultura popular, culminando no surgimento de novas formas de consumo cultural. Tais questões mexem, em muito, com as noções de alternância entre criadores e público nos procedimentos de criação, questões bastante pertinentes para as mudanças que estão ocorrendo na arte, inclusive na chamada Web 2.0, com seus processos colaborativos.

Porém, muito antes dessas transformações mencionadas por Santaella, os filósofos gregos Pitágoras (571 – 497 a.C.) e Aristóteles (384 – 322 a.C.), já investigavam a convergência dos meios e procuravam desenvolver sistemas para compreender as propriedades básicas do som e da luz. A busca de novas experiências sensoriais que relacionam sons e imagens, não é atual, ocorre desde a antiguidade, como aponta Sérgio Basbaum, em seu livro “Sinestesia, arte e tecnologia: fundamentos da cromossonia”.6

Já no século XVII, surgiram muitas teorias com o objetivo de provar uma conexão entre esses dois fenômenos, como foi o caso do físico Isaac Newton, que publicou resultados científicos sobre o assunto. Já no século XVIII, com base nas reflexões desenvolvidas pelos filósofos e físicos dos séculos anteriores, artistas e pesquisadores passam a criar máquinas audiovisuais que sugerem experiências sinestésicas7 em busca da “obra de arte total”.

As mais recentes inovações no campo das artes visuais, da música digital e do texto eletrônico, aproximam-se muito do conceito descrito por Wagner. Os recursos que as ferramentas multimídias proporcionam, possibilitam a integração de diferentes linguagens, música, vídeo, texto, etc., o que contribui para o aceleramento do processo do artista multimídia deste século. Este, tem mais condições de realizar o ideal de uma obra de arte total, do que um artista do século XIX. Muito embora artistas como Oskar Fischinger, já na década de 1930, e Norman McLaren nas décadas seguintes, desenvolvessem pesquisas de métodos para sincronizar som e imagem, em película. Abordaremos esses e outro artistas da visual music no Capítulo II, desta monografia.

A História da Arte é então, profundamente marcada pelas idéias de Wagner. Primeiro pela crença na “obra de arte total” como manifestação de insatisfação com os meios tradicionais e posteriormente, pelo surgimento da sétima arte como uma mídia inteiramente nova, que poderia finalmente reunir todas as artes. Sua obra é fundamental para os que queiram compreender o mundo pela experiência estética do híbrido “sonoro-verbal-visual”.8E também, para especialistas em busca de problematizar esse intrincado universo estético.

No ciberespaço, as produções artísticas caracterizam-se pela mediação tecnológica e podemos dizer que estamos finalmente na era das obras híbridas, da “obra de arte total”. As mídias podem finalmente alcançar uma verdadeira imbricação entre elas, através da digitalização e passam por profundas transformações. Até os conceitos de autoria e originalidade tornam-se difusos na “Era do Remix”, onde é possível apropriamo-nos dos sons, imagens e textos que nos cercam. O artista, que antes era apenas o emissor, criador bastante individualista, tornar-se também um observador, um receptor e principalmente um colaborador em suas obras, onde: “a+b=c”.

1Em “Das Kunstwerk der Zukunft”, o autor Whilhelm Richard Wagner aponta que as diferentes linguagens artísticas como a música, a poesia e a dança, são expressões de um corpo total não desarticulado. Com esta concepção do corpo determinada pela idéia de performatividade, Wagner procede a uma deslocação da tradicional correlação entre os sentidos e as artes, e conseqüentemente, da compreensão do Sistema das Artes (1890).

2O termo “Gesamtkunstwerk” (Arte Total), está relacionado a uma apresentação de ópera que conjuga diferentes linguagens artísticas como música, teatro, canto, dança e artes plásticas. Wagner acreditava que na antiga tragédia grega esses elementos estavam unidos, mas, em algum momento, separaram-se. Criticava o estado da ópera naquela época, pois a música era enfatizada e os outros elementos que compunham a apresentação eram descartados. Com a construção de seu teatro em “Bayreuth”, Wagner deu grande importância a elementos que proporcionassem ao público total imersão no mundo da ópera, como o escurecimento do teatro, os efeitos sonoros, o rebaixamento da orquestra no palco e o reposicionamento dos assentos para focar a atenção no palco. No campo das Artes, o termo “arte total” significa a “síntese das artes”, usado com freqüência para descrever qualquer integração de múltiplas expressões artísticas diferentes.

3Ver: Capítulo II, desta monografia.

4CAZNÓK e NAFFATH, 2000, introdução.

5SANTAELLA, 2003, p.52.

6BASBAUM, 2002, p.20.

7O termo “sinestésico” vem da palavra sinestesia, do grego (sin + aisthesis) significa a reunião de múltiplas sensações. (BASBAUM, 2002, p.19)

8SANTAELLA, 2001. Ver: “O Hipertexto como Linguagem”, desta monografia.

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3 comentários sobre “CAPÍTULO I | A OBRA DE ARTE TOTAL

  1. isto é nsuper grande deviam pensar em resumos e nos estudantes que estao a aprender esta materia sobre wagnar e que tem trabalhos para fazer

    • olá, esse post é apenas um capítulo de toda a monografia, portanto as análises são voltadas para o tema em quastão: mashups.

  2. desculpem o que eu queria dizer era:que isto é super grande,tem imensas coisas e detalhes desnecessários.Podiam pensar em resumos,…,há estudantes como eu que estão a aprender esta matéria nova sobre WAGNER e com isto só nos baralhamos.

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