CAPÍTULO I | KULESHOV: A+B=C

KULESHOV: A+B=C

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O ponto de partida para a pesquisa dos mashups1 na internet passa obrigatoriamente pelo famoso “efeito Kuleshov”, somado à “obra de arte total” proposta por Wagner, como foi visto no capítulo anterior.

O termo “efeito Kuleshov” recebe o nome de seu criador, o cineasta russo Lev Vladimirovich Kuleshov (1899-1970). Faremos a seguir, uma analogia deste, com a fórmula “a+b=c”, que estrutura nossa tese.

A fórmula “a+b=c” ilustra uma idéia de soma bastante simples. Dois elementos quando somados, geram um terceiro elemento. O elemento resultante dessa soma, em “a+b=c”, não é simplesmente a junção de suas partes, que nesse caso seria representada pela fórmula: “a+b=ab”, mas sim um terceiro elemento (c) distinto de suas partes constituintes (a+b). Partindo desse conceito o cineasta russo desenvolveu experiências audiovisuais que resultaram no “efeito Kuleshov”.

Devido à situação política da Rússia, por volta de 1920, Kuleshov não tinha acesso à película para filmar suas próprias imagens. O que para muitos seria um impedimento, para ele foi um estímulo. Decide, assim, fazer seus filmes através de técnicas de colagens, utilizando fotogramas de outros filmes e contando suas histórias de um modo bastante original e inusitado para a época.2

Em pleno século XXI, quase cem anos após seu advento, os experimentos do cineasta mostram-se extremamente atuais. Com a popularização da internet e principalmente com a Web 2.0, o “efeito Kuleshov” parece ter sido o precursor das discussões sobre autoria, colaboração, distribuição e dos processos criativos na internet. É cada vez mais debatido e utilizado pelos profissionais e artistas das diferentes vertentes do audiovisual.

O poder do “efeito Kuleshov” foi bastante superestimado nas décadas de 20 e 30. Outros teóricos e cineastas, como os russos Sergei Eisenstein e Dziga Vertov, exploraram essa nova abordagem em função da valorização da montagem. A repercussão foi tão grande, que a montagem a partir daí tornou-se essencial, em detrimento de outros elementos da linguagem cinematográfica.3

Há, porém, uma substancial diferença entre as concepções de Kuleshov e de Eisenstein, como discutiremos no capítulo “Eisenstein: O ideograma e a cultura japonesa”, desta monografia.

Utilizando-se da montagem para justapor diferentes fotogramas e criar uma narrativa, Kuleshov explorava a repetição de alguns planos em diferentes contextos. Por exemplo, um único plano de um ator com expressão neutra era editado em sequência com imagens tão contrastantes como: um caixão, uma mulher e um prato de sopa, como ilustra a figura abaixo:

Figura 2 . “Efeito Kuleshov”

prato de sopa = “apetite” / homem num caixão = “tristeza” / mulher deitada = “ternura”

O espectador era induzido a ver/sentir que a expressão do ator “mudava”, quando na realidade ela permanecia inalterada. A justaposição dos planos, “contaminava” a interpretação dos espectadores, fazendo-os acreditar que a expressão do ator havia se transformado. Ou seja, a partir daí fica claro que é possível contar uma história de maneira não-linear. É possível desenvolver uma narrativa, a partir de diferentes fragmentos. Por exemplo, juntando a filmagem de uma mulher saindo por uma porta, com uma cena em que a mesma está dentro de um carro, conseguimos atravessar uma distância de quilômetros em segundos, criando um espaço-tempo que só a montagem pode oferecer.

Kuleshov ainda iria dizer que o sucesso do cinema americano se deu pela clareza e rapidez da narrativa, aliando uma montagem “invisível” às dinâmicas sequências de ação. O close no rosto de uma cantora, somado ao fotograma em que a mesma está em cima de um palco, pode ter um intervalo de anos entre suas filmagens, mas quando colocados em uma mesma cena o espectador terá a ilusão que foram feitas ao mesmo tempo.

Há quem argumente que esses experimentos sugerem um dilema interessante nos tempos que correm para a cultura do remix4. A PhD Danah Boyd5, pesquisadora da Microsoft Research New England e colaboradora na Harvard Berkman Center, questiona em seu blog6, o que acontece quando a construção de um artista é tirada de seu contexto para servir outros propósitos, que não os intencionados pelo autor primeiro. Boyd levanta questões bastante pertinentes no que diz respeito à autoria e re-significação das obras: Um artista tem o controle sobre o contexto no qual seu material é utilizado? Como isso afeta o modo como o material é distribuído? E assim por diante.

Abordaremos autoria e colaboração na internet no capítulo “Colaboração e Autoria”, desta monografia.

1O termo “mashup”, para além das referências artísticas e audiovisuais, é um website ou uma aplicação web que usa conteúdo de mais de uma fonte para criar um novo serviço completo. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mashup (acessado 11/10/2009).

3Ver: “Eisenstein: O ideograma e a cultura japonesa”, desta monografia.

4Remix” é uma aplicação técnica que visa trabalhar com colagens musicais e/ou visuais combinando idéias, princípios e sonoridades numa produção que pressupõe variações sobre um mesmo tema. Adaptado de: GERRISH, 2004, p.25.

5BOYD, Danah, 2003.

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